Veículo: O Estado Cidade: Fortaleza Editoria: Verde Data: 12/07/11 Tipo de mídia: Impresso
Hora da virada - Brasil pode se tornar potência energética mundial

Por Tarik Otoch
Fortaleza foi o centro das discussões brasileiras sobre energias renováveis na última semana. Foi quando aconteceu, entre os dias 5 e 8 de julho, a sexta edição do All About Energy, evento que reuniu, no Centro de Convenções, as maiores empresas do Brasil e da região e alguns grandes players mundiais da indústria da energia renovável.
O All About Energy trouxe ao Ceará grandes discussões sobre os rumos das energias renováveis (eólica, solar, das marés, etc) no Brasil e no mundo.
Não à toa o evento teve suas seis edições realizadas em Fortaleza – e a sétima também será, em 2012. O Estado do Ceará vem sendo destaque nacional quando o assunto é geração de energia renovável, tanto pelas características geográficas quanto pelas políticas governamentais.
“Temos, no Ceará, um consumo de 1.500 megawatts e, em 2012, o Estado estará com capacidade para gerar mais de 2.000 megawatts através da energia eólica. Sairemos da condição de Estado 100% importador de energia para Estado exportador de energia renovável”, disse o governador em exercício Domingos Filho.
Não só o Ceará, mas o Brasil deve despontar como potência da energia renovável nos próximos anos. Este foi o tema central da palestra de abertura do All About Energy. E não se trata de bairrismo ou patriotismo exacerbado, pois isso foi dito por autoridades internacionais.
“O mundo tem a aprender e deve aprender muito com o Brasil”, disse o secretário geral da Associação Mundial de Energia Eólica (WWEA) Stefan Gsanger. “Eu realmente acredito que o Brasil deva desempenhar papel principal na integração (dos sistemas de energias renováveis). Sabemos que a China e outros países estão liderando hoje, mas é um desafio. Não há nenhum país até agora que tenha interesse tão grande como o Brasil nisso”, completou.
O “dever” conjugado por Gsanger tem dois sentidos: o Brasil tem tudo para estar entre os líderes da revolução energética global e, ao mesmo tempo, precisa fazer isso, ao gerenciar melhor sua política energética.
“O Brasil desempenha, em nível regional, o papel que a China faz em nível mundial. É líder em energia eólica na região, mas a América Latina ainda não desempenha papel importante no mundo, com apenas 1% da capacidade mundial instalada”.
Oportunidade histórica
O Brasil não depende de matrizes energéticas “marrons” e possui potencial absurdo para a energia renovável. Por isso, para Richard Polick, da empresa de consultoria e certificação energética Kema (EUA), o Brasil pode estar em meio a um ponto de virada, em posição estratégica nesse processo de transição.
“Estou com inveja de onde vocês estão em termos de energia nesse momento. Vocês têm oportunidade real de fazer o seu futuro. Já trabalho com energia há 30 anos e já vi muitas mudanças, mas nada comparado ao que vai ocorrer nos próximos 30 anos. Os países que não estão trabalhando com energias renováveis terão de se adaptar e não saberão como fazer isso. Se vocês se concentrarem neste conceito de energia renovável, o Brasil ultrapassar outros países no mundo em termos de crescimento econômico”, disse Polick.
Contudo, para o potencial ser convertido em crescimento, é preciso haver uma grande mudança na política energética. “Poucos telhados de casas aqui em Fortaleza possuem painéis solares para reduzir a quantidade de energia utilizada”, contrapôs o consultor.
O Brasil tem que correr bastante para alcançar a realidade global. O empresário Dante Bonorandi, diretor da Mercurius Engenharia, dá o exemplo da Alemanha, onde energias solar e eólicas são bastante disseminadas e existe um mecanismo chamado “reversor”, capaz de acumular energia solar para uso residencial e alimentar a rede pública com o excedente, revertendo em lucro para o cidadão.
Mas apesar das realidades distantes, Dante acredita que o mercado brasileiro está crescendo bem e deve aquecer ainda mais em pouco tempo. “O mercado (de energias renováveis) teve início conturbado no Brasil, com muitas incertezas. Mas desde 2008, acho que o quadro mudou sensivelmente. Hoje, é um mercado 100% consolidado e com nível de crescimento que surpreenderá a todos a médio e longo prazo”, diz. Dante trabalha no ramo há mais de 10 anos e responde por 56% da geração de energia eólica do país, com 18 parques construídos.
Para Richard Polick, tal crescimento pode significar uma reviravolta na economia brasileira. Construir um Brasil verde, com futuro de energias renováveis, diz ele, “é algo que vocês, como povo, devem ter muito orgulho. Isso vai colocá-los em posição econômica vantajosa enquanto outros estão se debatendo para saber como lidar com os gases de efeito estufa”.
“É um investimento que, enquanto nação, povo, vocês devem fazer e devem liderar o mundo. Então, avancem e as oportunidades serão enormes”, completou o consultor.
Desafio da integração
Para Stefan Gsanger, da WWEA, os desafios que o Brasil deve aceitar são o da expansão e o da integração.
“Existem grandes desafios em escala global. Precisamos de mais políticas públicas para que todos os países passem a utilizar energia eólica. E é preciso haver a integração de diferentes tecnologias. Como chegar a uma matriz (energética) 100% renovável? Não podemos pensar em tecnologias individuais como a eólica, solar, o biocombustível. Precisamos pensar de maneira integrada”.
Gsanger explica que, desde o incidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, em março, a forma com a qual o mundo utiliza a energia está mudando. “Houve um impacto enorme em como encaramos a tecnologia. Maior conscientização do problema das mudanças climáticas e outros problemas ligados aos combustíveis fósseis, como o derramamento de petróleo no Golfo do México”.
Na transição que esse novo olhar sobre as matrizes energéticas sugere, a eólica tem papel de protagonista. “A energia eólica está sendo a mola propulsora da transformação para as renováveis. Hoje, há 200 mil megawatts de capacidade instalada no mundo, o que significa 3% do abastecimento energético”, explica.
Pré-sal financiará
renováveis
O vice-ministro da Integração Nacional, Alexandre Navarro, ressaltou a importância do Ceará como exemplo nacional de política energética e explicou que a exploração de petróleo na camada pré-sal é fundamental para o desenvolvimento dessa política em nível nacional.
“O Ceará virou um emblema para o país em energias renováveis”, disse. Mas, para que a transição para matrizes energéticas limpas seja executada, muito há de ser investido. “Para que o mundo se torne baseado em energias sustentáveis são necessários investimentos de US$ 2 trilhões por ano durante 40 anos” – disse Navarro, referindo-se às conclusões de um estudo divulgado na última quarta-feira (6) pela ONU, segundo o qual serão necessários US$ 76 trilhões nos próximos 40 anos para fazer a transição à chamada “economia verde” (o equivalente a 3% do PIB global em 2010).
Em suma, a Economia Verde pretende inserir as variáveis sociais e ambientais em um novo modelo econômico que teria como prioridades a sustentabilidade ambiental e a erradicação da pobreza e da fome.
Nessa fórmula, o pré-sal entraria como financiador, de acordo com o vice-ministro. “O pré-sal terá que ser um braço da vertente sustentável. Não dá para separá-lo. Os recursos do petróleo serão importantes para o financiamento de energias (de fontes) alternativas”. Navarro quantificou: segundo ele, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico terá R$ 6 bilhões anuais de recursos oriundos da exploração do petróleo na camada pré-sal.
